O Futuro é a Liberdade

Discussões sobre Software Livre e Sociedade

Mensagem para os jovens…

Posted by Paulo em 02/12/2010

Eu tenho mais ou menos 25 anos de profissão. Sou técnico em eletrônica, e trabalhei metade da minha carreira na área de telecomunicações e a outra metade na área de TI, e por vezes, trabalhei na linha divisória entre as duas áreas. Eu tive meus primeiros contatos com computadores por volta de 1984, rodando simuladores de vôo em computadores TK-82 (processadores Z80 com 4kbytes de memória), que vinham em fitas k7, ou em DGT1000, nos laboratórios do CEFET-MG, programando Z80 em Assembler. Pouco depois, eu era um dos raros profissionais de BH que tinha um curso do Intel 8086/8088, e isso me garantiu a oportunidade de ser um dos poucos, na época, com a competência técnica para reparar computadores PC-XT a nível de componente. Sim, eu consertava placas mãe e controladoras com um multímetro e um osciloscópio, além de vários disquetes de teste. Eu também fazia alinhamento de drivers de disquete, consertava impressoras e todo tipo de equipamento que quase ninguém conhecia, como terminais VT-100, cujo maior problema eram as portas seriais RS-232 que queimavam com frequência. Na época em que me formei, não existiam cursos de informática, cursos de graduação em “TI” e coisas assim. Nós aprendemos tudo na prática.

Nesses anos todos, eu vi a ascensão da Microsoft, a queda e posterior renascimento das cinzas de Steve Jobs, o surgimento e desaparecimento de gigantescas empresas de telecomunicações multinacionais, como a Sita, o surgimento do software livre que, em 1993 me pareceu como uma promessa de liberdade para o futuro. me lembro de ter tentado instalar o Igdrasil a partir dos fontes, e também de ter desistido, depois de muitas tentativas frustradas. Me lembro dos vírus Ping-Pong, Cascata e Sexta Feira 13, que colocava nos setores de boot dos disquetes uma frase em apologia ao consumo de maconha. Me lembro das primeiras tentativas de empresas como a Corel, que ousaram tentar lançar no mercado concorrentes ao MS Office e serem completamente varridas do mapa, porque a Microsoft fazia questão de tornar o Windows totalmente incompatível com os programas dos concorrentes. Eu me lembro da reserva de mercado de informática e da enorme dificuldade de se adquirir computadores no país, graças a uma legislação míope. Eu vi e vivi muitas das situações que hoje as pessoas chamam de “fatos históricos” e outras que muitas pessoas chamam de “hipóteses” e “suposições”.

O primeiro curso de manutenção de hardware de computador que foi dado no CEFET-MG, fui eu quem ministrou. Hoje, não raro, encontro pessoas com seus pouco mais de 20 anos de idade, dizendo-se “especialista”, do alto do seu salto. É incrível a quantidade de “entendidos” que aparecem querendo mostrar o quanto são “informados” e “especializados” em PN*. Hoje, quando se entra em discussões de cunho ideológico, as paixões falam muito mais alto do que os fatos e acontecimentos. Muita gente hoje defende seus programas de computador como se fossem suas religiões, sem contudo, conhecer a história das pessoas que fizeram com que ele chegasse onde chegou hoje.

Meu pai me enviou o texto abaixo, hoje:

Essa é uma homenagem aos cabelos brancos.

Um jovem muito arrogante, que estava assistindo a um jogo de futebol, tomou para si a responsabilidade de explicar a um senhor já maduro, próximo  dele, porque era impossível a alguém da velha geração entender esta  geração.

“Vocês cresceram em um mundo diferente, um mundo quase primitivo!”, o estudante disse alto e claro de modo que todos em volta pudessem ouvi-lo.
“Nós, os jovens de hoje, crescemos com  Internet, celular, televisão, aviões a jato, viagens espaciais, homens caminhando na Lua, nossas espaçonaves tendo visitado Marte. Nós  temos  energia nuclear, carros  elétricos e  a  hidrogênio, computadores com grande capacidade de processamento e …,” – fez uma pausa para tomar outro gole de cerveja.

O senhor se aproveitou do intervalo do gole para interromper a liturgia do estudante em sua ladainha e disse:

“Você está certo, filho. Nós não tivemos essas coisas quando éramos jovens por que estávamos ocupados em inventá-las. E você, um bostinha arrogante dos dias de hoje, o que está fazendo para a próxima geração?”

Foi aplaudido ruidosamente, de pé !

Esse texto me tocou fundo, porque é exatamente isso que sinto quando vejo esses “especialistas” discursarem.

Muitos chamam os defensores do Software Livre de “xiitas”, sem conhecer os acontecimentos de 20 ou 30 anos atrás, apenas pelo fato de terem ouvido falar certas coisas, que hoje tomam como verdade absoluta. Os defensores do Windows ou do Office são tão, ou mais, “xiitas”. Só que sua “fé” é cega. Eles acreditam piamente que os programas que usam são bons, inovadores, feitos por uma empresa sólida e que se esforça por atender às necessidades de seus clientes. Quem defende o SL** não imagina que o SP*** é prejudicial. Nós, defensores do SL, não achamos, temos consciência disso. Não defendemos o SL porque ouvimos falar que é bom, ou porque “todo mundo usa”. Defendemos porque comparamos um com o outro, num contexto muito maior do que o simples, e abstrato, conceito da “usabilidade”. Nosso contexto passa pela inclusão social, pelo desenvolvimento e inovação tecnológica, pela independência de fornecedores, pela difusão do conhecimento, pela liberdade de expressão, pelos direitos humanos, pela distribuição de renda, além de muitas outras coisas. O SP não visa nada dessas coisas, visa o lucro e o acúmulo de capital. Se, de alguma forma contribui para alguma das situações acima, é porque dá lucro, também.

Usar e difundir o SL é muito mais do que uma questão econômica. É econômica, política e social e, por isso mesmo, é ideológica. Certa vez, uma pessoa que discutia comigo falava quase que freneticamente do “ranço ideológico” que os defensores do SL tinham, em detrimento do pragmatismo que, na visão dele, era a única coisa que importava. Ocorre que, quando se tem uma visão limitada, ou “pragmática” das coisas, deixa-se de lado muitos aspectos que poderiam mudar a nossa opinião, caso fossem considerados. O “pragmatismo”, nada mais é do que a escolha daqueles aspectos que consideraremos importantes, em detrimento de outros que consideramos pouco importantes. Mas, qual o critério que utilizamos para considerar o que é importante e o que não é? Em geral o critério é aquilo que nos favorece de maneira imediata, não importando o que isso cause aos outros no médio e no longo prazos. Portanto, o “pragmatismo” tem feito com que resolvamos nossos problemas imediatos, deixando uma conta a ser paga no futuro. Nos dias de hoje, estamos pagando as contas de decisões feitas por “pragmáticos” no passado, assim como colhendo os frutos daqueles que nos legaram boas heranças. Assim, ao mesmo tempo que precisamos que o exército invada favelas no Rio de Janeiro, porque governos anteriores não se preocuparam em reprimir o tráfico de drogas, colhemos os frutos de pessoas que nos legaram os meios pelos quais hoje temos Internet e smartphones com Andriod.

E hoje? O que deixaremos para as gerações futuras? O pragmatismo que levou à heranças como as de Chernobyl, e que hoje ameaça a neutralidade da Internet baseando-se na alegação de que é preciso “reprimir crimes” como compartilhar um livro ou uma música com um amigo? Ou a herança do “extremismo xiita” que fez com que derrubássemos um presidente corrupto porque queríamos um país e um mundo melhor e mais justo? O mesmo “extremismo” que nos faz dizer a todos que optem pelo Software Livre, que usem o Linux, que exijam padrões abertos em detrimento dos proprietários. Se for para tentar melhorar o mundo e torná-lo mais justo e humano, sim, eu sou extremista. Se for pra impedir o acúmulo exagerado de capital, os monopólios, a escravidão velada, travestida de liberdade, sim, eu sou extremista. Se for pra desmascarar a suposta “liberdade” apregoada por um “mercado” que escraviza os pobres, o mesmo mercado que privatiza os lucros e socializa os prejuízos, como acontece em todas as crises econômicas, sim eu sou extremista.

Nós, que hoje defendemos o SL não admitimos que a informação e o conhecimento sejam cerceados através da máscara da “propriedade intelectual”. O conhecimento não pode ser propriedade de alguém, porque esse alguém não o conseguiu sozinho e por seus próprios meios. Todo conhecimento é a soma de experiências, e a experiência nos é dada pelo mundo, e pela sociedade. Podemos, quando muito, dizer que talvez tenhamos sido os primeiros a fazer ou dizer tal coisa. Mas, dizer que por isso somos donos do direito de utilizá-la quando é útil para a sociedade, que permitiu e deu as condições para que ela fosse criada, é muita arrogância.

É por isso, meu caro amigo leitor, que defendemos o SL. Porque temos valores morais e prezamos pela nossa sociedade, nosso país e nosso planeta. Sabemos que a informação é fator fundamental para a inclusão social, e não podemos admitir que as ferramentas que possibilitam o acesso à ela sejam propriedade de alguém. Não defendemos o anonimato dos que possibilitaram a manifestação das ideias. Eles devem ser reconhecidos e recompensados. Mas não admitimos que se apropriem daquilo que pertence a todos, por direito.

 

* PN – Porcaria Nenhuma
* SL – Software Livre
* SP – Software Proprietário

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