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Discussões sobre Software Livre e Sociedade

Wikileaks: Isso é só o começo

Posted by Paulo em 28/12/2010

Logo used by Wikileaks

Image via Wikipedia

A maioria das pessoas pode pensar que o caso Wikileaks é um fato isolado, e que será logo emudecido pelo governo americano. Quem tem uma visão um pouco mais abrangente, poderia dizer que deixará marcas, mas logo será esquecido. Os poucos que possuem a capacidade de olhar o panorama e vislumbrar os detalhes concordarão com o artigo de Robin Bloor do The Virtual Circle. É como se tivessem aberto a caixa de Pandora e as consequências são imprevisíveis.

E o que isso tem a ver com padrões abertos, software livre, sociedade, inclusão social, entre outros assuntos que abordo neste blog? Eu diria que TUDO. O alcance do caso Wikileaks em nossas vidas promete ser de uma profundidade raramente vista. Ainda não tinha visto uma análise tão abrangente da situação. A coisa é muito maior do que qualquer um pode imaginar. Por isso, traduzi abaixo o artigo, disponível em http://www.thevirtualcircle.com/2010/12/wikileaks-this-is-just-the-beginning/, para que vocês tenham uma leve demonstração do que tudo isso pode significar.

Wikileaks: Isso é só o começo

22 de Dezembro de 2010, por robinbloor

“Uma invasão de exércitos pode sofrer resistências, mas não uma ideia cujo tempo chegou.”  Victor Hugo

Há muita agitação a respeito do Wikileaks nos canais de bate papo nos EUA e no resto do mundo. Os políticos estão com os braços para o ar, muitos comentaristas estão horrorizados e as águias da lei estão se pontificando. A imprensa está tendo a dia de campo, pelo menos no que diz respeito às histórias que eles podem publicar do material que vazou. Mas todos parecem estar perdendo a importância do que está acontecendo.

A História está marchando.

Há uma forte analogia entre o Édito de Worms e a tentativa fracassada do Papa Leão X de silenciar Matinho Lutero.

Vamos eliminar um pouco do ruído que está poluindo o ar ultimamente.

  • A extradição de Julian Assange para a Suécia é quase irrelevante. Ela é geralmente percebida como uma tentativa de atingir Assange, e o que tem feito é oferecer a ele um palco dramático onde ele pode representar. O único elemento relevante é o fato de que isso tomou os noticiários do mundo.
  • A extradição de Julian Assange para os EUA provavelmente tornará sua vida desconfortável, mas dará a ele ainda mais exposição pública. Se não acontecer, o governo americano ficará com a imagem de fraqueza. Se acontecer, é provável que levará à sua condenação. Se não houver condenação, será uma vitória para Assange, e se houver, também será uma grande vitória para o que ele representa. Para o governo dos EUA, em termos de opinião pública, é perder, perder ou perder.
  • A única importância de Julian Assange é a de figura proeminente. Se ele for tirado dessa posição, por qualquer tipo de evento, seja acidental, conspiratório, ou o resultado de uma ação judicial legítima, isso não vai parar o que ele começou, e terá tanto efeito quanto a culpa de Martinho Lutero no Édito de Worms teve em parar o nascimento movimento protestante.

A Batalha Perdida

Houve uma breve tentativa por parte do governo dos EUA e de seus aliados de fechar o Wikileaks. Se pensarmos nisso como uma guerra de informação, então a primeira batalha acabou com uma terrível derrota para os EUA. Vejam o que aconteceu:

  • O Wikileaks foi atingido por ataques de negação de serviço. Rapidamente conseguiu espelhos suficientes para se tornar invulnerável.
  • O poder comercial veio à tona através do PayPal, Visa e Mastecard que tentaram obstruir as doações. O tiro saiu pela culatra. Há muito poucas dúvidas de que muito mais dinheiro fluiu para o Wikileaks em resposta a essa arma comercial e, de qualquer forma foi foi inútil. Para paralizar as doações, seria necessário conseguir a cooperação de praticamente todos os bancos do mundo.
  • O poder da infraestrutura técnica foi trazido à baila, com a Amazon tirando o Wikileaks dos seus servidores e com a EveryDNS apagando os registros de DNS do Wikileaks. Não foi difícil para o Wikileaks encontrar outro DN e tudo o que o gesto da Amazon conseguiu foi o dano à imagem da empreza.

Qualquer coisa menos do que tirar o Wikileaks do ar foi uma derrota, e o governo dos EUA foi derrotado em poucos dias. Foi difícil, é claro. O governo dos EUA precisava, por razões políticas, ser visto fazendo alguma coisa, por isso fez coisas um tanto quanto inefetivas. Talvez mais pudesse ter sido feito.

O Lutero Atual

Na guerra, se você não tem um entendimento claro do que a vitória significa, você está encrencado. É tentador sugerir que o governo dos EUA está profundamente encrencado só por esse motivo. Entretanto, é um erro ver o governo dos EUA como um lado específico nessa guerra. Essa é uma guerra de informações e guerras de informações acontecem entre estruturas de poder, não entre países. É a estrutura de poder dos EUA, não os EUA em si, que está em um dos lados dessa guerra. Guerras de informação são, por sua natureza, guerras civis entre grupos de cidadãos que vivem sob a égide de uma dada estrutura de controle de informação. Um lado deseja conservá-la, e o outro quer mudá-la.

Martinho Lutero iniciou uma guerra de informação. De um lado haviam estruturas de poder que eram baseadas no controle da informação, da maneira que tradicionalmente sempre foi controlada. Do outro lado, estavam revolucionários que acreditavam que aquelas estruturas de poder precisavam ser substituídas e a informação tornada mais livremente disponível do que antes. A batalha inicial foi com relação à Bíblia. A Igreja Católica Romana na Europa controlava a Bíblia. Quando a prensa apareceu, seu controle foi enfraquecido. A gráfica de Gutemberg começou suas atividades em 1450, o Édito de Worms veio 70 anos depois, em 1521

Na sequência do Édito de Worms, o Papa Leão X promoveu uma “fatwa”, uma guerra santa, proclamando que seria perfeitamente justo assassinar Martinho Lutero, mas Lutero simplesmente se retirou para o Castelo de Wartburg Castle em Eisenach onde viveu incognito, porém protegido, traduzindo a Bíblia para o Alemão. E claro, Lutero não estava sozinho na tradução da Bíblia. Outros começaram a fazer o mesmo. A Igreja Católica, não só perdeu seu monopólio sobre a Bíblia, mas também o controle sobre os idiomas nos quais ela seria publicada.

Hoje em dia, isso não parece grande coisa, como realmente foi. Na época, a Bíblia era considerada como o fundamento do conhecimento e da verdade. Muito poucos outros livros existiam; apenas os clássicos gregos de Platão, Aristóteles e outros. Esses também tinham um elevado apreço.

Sem o movimento protestante, Henrique VIII da Inglaterra provavelmente não teria desafiado Roma e fundado sua própria Igreja Protestante da Inglaterra. Muito mais tarde, o monarca Inglês, Carlos I seria decapitado pelo protestante Oliver Cromwell. A Europa rapidamente foi dividida entre países católicos e protestantes, e as monarquias foram gradualmente sendo substituídas por democracias e repúblicas democráticas que relegaram seus monarcas a papéis alegóricos. O Édito de Worms teve consequências.

Uma Guerra em Duas Frentes

A estrutura de poder dos EUA não pode se comportar como a da antiga União Soviética. Ela não pode invadir Praga com uma coluna de tanques e instalar um governo diferente por decreto. A Praga que eles buscam conquistar é uma super-Hidra virtual. Abata-a e centenas de espelhos idênticos nascerão do nada. Mesmo que você a destrua inteiramente, outras Pragas virtuais serão fundadas, sem sombra de dúvida.

A guerra de informações está sendo travada agora em duas frentes.

  1. A primeira frente é a própria mídia, tanto a antiga como a nova.
  2. A segunda frente é a tecnologia de informação que a possibilita.

Na Mídia

As fileiras dos apoiadores dos vazamentos nessa guerra estão crescendo em número rapidamente. Muitos jornalistas profissionais se levantaram na Austrália para protestar contra a fraca proteção de seu governo em favor de Assange, seu próprio cidadão – e o público parece estar do lado deles. De maneira semelhante, todo um séquito de jornalistas ingleses têm se posicionado lado a lado com Assange. Somente nos EUA, onde a imprensa se tornou notadamente mais dócil, há pouco apoio ao Wikileaks na grande mídia, mas isso vai mudar se a primeira emenda vier para o centro do debate – e provavelmente virá.

O Wikileaks está gerando imitadores rapidamente. Na última contagem haviam 7 sítios de informações vazadas: o BalkanLeaks nos Balcãs, o BrusselsLeaks na Bélgica, o Indoleaks na Indonésia, o Rospil na Rússia, o Tunileaks na Tunísia, o Open Leaks (uma dissidência do Wikileaks) e o próprio Wikileaks. A maioria desses sítios apareceu nas últimas semanas. E haverão mais.

É provável que a ideia de se roubar informações e vazá-las como sendo um “dever público” tenha se tornado viral. O número de vazamentos atualmente vai, provavelmente, aumentar. E isso pode cheirara desastre para qualquer organização, governo ou qualquer um, que tenha sua segurança de informação inadequada e também algo a esconder. A segurança da informação nunca foi uma grande área de investimentos na maioria das organizações e, claramente, não era uma prioridade para o Exército dos EUA. Muitos vazamentos ainda mais embaraçosos ocorrerão em muitos lugares antes que qualquer providência real quanto à segurança da informação seja comum.

A maré parece favorável ao Wikileaks. Há detalhes nessa história que deveriam preocupar o governo dos EUA, se quiser preservar o status quo.

  • O Presidente Obama prometeu abertura no governo, mas nunca cumpriu. Agora é vítima de seu próprio petardo. O governo dos EUA agora precisa encarar a questão da transparência, ou simplesmente admitir que a transparência é indesejável.
  • Exceto pelos vazamentos relacionados à política interna, ninguém mais publica nada dos vazamentos na mídia norte-americana. A mídia norte-americana não tem mais credibilidade, porque o Wikileaks e organizações desse tipo são mais “seguras e sexys” para vazar informações. Além disso, a mídia norte-americana parece ter perdido o jeito do jornalismo investigativo.
  • Os modelos de negócios das mídias norte-americanas estão falhando. Estão começando a se parecer com dinossauros.
  • O governo dos EUA não é o único alvo. Outros governos também são. Assim como muitas empresas de grande porte. A indignação imediata nos EUA é por causa do conteúdo dos cabos diplomáticos. Mas como o governo lidará com o vazamento de, digamos, informações bancárias que indicam algum tipo de fraude, ou alguma informação corporativa que demonstrasse algum tipo de acordo escondido entre o governo e empresas, ou entre governos. Tentar matar o mensageiro não funcionará bem nesses tipos de vazamentos.

Tecnologia de Informação

A tentativa de tirar do ar o Wikileaks revelou áreas genuínas de vulnerabilidade para o Wikileaks e para qualquer outra organização que queira operar com impunidade:

  • A própria estrutura do DNS
  • Os sistemas de pagamentos
  • Os provedores de serviços (como a Amazon)
  • A localização física

A própria ideia de que o governo dos EUA possa controlar a Internet para seus próprios propósitos é preocupante para muitas pessoas, não necessariamente por causa da situação atual, mas por causa das situações que possam acontecer no futuro.

A reação natural é criar uma estrutura virtual segura que torne essa ação impossível. Isso é provavelmente possível através da utilização de várias inovações técnicas. (Uma vez que isso determinará o curso da história) As inovações incluiriam:

  • Um DNS baseado na tecnologia peer-to-peer (que seria impossível de fechar através do fechamento de um nó qualquer).
  • Redes físicas em malha (assim seriam muito difícil desconectar qualquer nó individual).
  • Tráfego regularmente encriptado.
  • Sistemas de pagamento peer-to-peer, como o Bitcoin (contornando as principais operações de bloqueio financeiro, como a Visa e a Mastercard).
  • Serviços em nuvem anônimos (como o EC2).

Isso também exigirá algumas proteções legais mínimas para esses sistemas. Isso, por sua vez, exige um governo que premie o tipo de liberdade que o Wikileaks busca. Se esse governo vai aparecer, é difícil saber, mas se acontecer, a Islândia é um candidato provável.

Nós, provavelmente, veremos essas inovações aparecerem – provocadas pelo confronto atual.

É um Conflito Muito Maior do que Você Imagina

A guerra da informação é real, mas os protagonistas não são exatamente como os que descrevi. Os EUA podem estar doloridos nesse momento, por causa do Wikileaks, mas isso tem a ver com estruturas de poder. O governo dos EUA é meramente uma das estruturas de poder que estão sob a ameaça da “transparência do vencido”. Quase todos os governos estão sob a mesma ameaça. Empresas que baseiam seus modelos de negócios em corrupção e grandes lobbies também estão sob a mesma ameaça. O atual sistema econômico mundial (moedas nacionais e o sistema bancário mundial) também poderá ser desafiado.

A última grande guerra de informação foi possibilitada pela introdução da prensa. Ela deu causa a toda uma gama de efeitos que eram imprevisíveis na época, mas lógicos na retrospectiva. Sua natureza revolucionária não foi apreciada no seu todo na época. Entretanto as seguintes consequências podem ser colocadas às suas portas:

O cisma na Igreja Romana, a queda das monarquias da Europa, o surgimento da democracia, a introdução do papel moeda, o sistema bancário moderno, seguros, empresas privadas, bolsas de valores e outros mercados financeiros e um comércio internacional muito maior, o nascimento da imprensa jornalística, da literatura, da indústria gráfica e da educação universal.

Essa guerra da informação não começou com Julian Assange e o Wikileaks, mas com Tim Berners Lee.

A última guerra da informação não começou com Martinho Lutero e suas 95 Teses, mas com Johannes Gutenberg.

Nos últimos tempos, parece inevitável que outras estruturas de poder sejam arrastadas para dentro dessa guerra: os governos da China, Rússia e Irã, por exemplo.

Uma resposta to “Wikileaks: Isso é só o começo”

  1. […] (Note: A Portuguese translation of this article is available here) […]

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