O Futuro é a Liberdade

Discussões sobre Software Livre e Sociedade

ODF 5 Anos

Publicado por Paulo em 06/05/2010

Muitas pessoas têm a ilusão de que a Microsoft está na  liderança do mercado porque é competente e tem bons produtos. Essa é uma visão distorcida, típica das pessoas que “pegaram o bonde da tecnologia andando”, e que desconhecem a história. Pessoas que, como eu, estão na área de TI há mais de 20 anos, viveram a história e viram como e por que certas coisas aconteceram, e o mercado de informática tem a cara que tem hoje. Não temos essa ilusão, e vemos o software livre de uma forma muito simpática… Pelo menos a maioria de nós.

O texto abaixo de Rob Wier, lança um pouco de luz na história das aplicações e dos sistemas operacionais, que pode ajudar, a quem esteja interessado em saber, a entender porque os defensores do software livre são tão apaixonados pela sua causa. Como se diz popularmente: “gato escaldado tem medo de água fria”.

01 de Maio de 2010 em http://www.robweir.com/blog/2010/05/odf-5-years.html

Tradução: Paulo de Souza Lima

Há exatamente cinco anos atrás, em 1 de maio de 2005, o OASIS aprovou o formato aberto de documentos 1.0 (Open Document Format – ODF 1.0) como padrão OASIS. Eu gostaria de dedicar uns poucos e breves minutos para refletir sobre esse marco, mas apenas isso. Estamos ocupados no trabalho no OASIS fazendo os últimos ajustes no ODF 1.2. Estamos nas últimas semanas da revisão que tem “todas as mãos na massa” para que possamos entregar as questões pendentes, dessa forma, podemos enviá-la para a revisão pública final. Mas espero que eu possa ser desculpado por um pequeno desvio para comemorar esse aniversário.

Não falarei muito a respeito dos 5 anos da aprovação do ODF 1.0. A ODF Alliance e seu “ODF faz 5 anos” [pdf] fez um bom trabalho com essa publicação. Mas gostaria de falar um pouco a respeito do ODF e porque foi tão importante ele ter aparecido no momento em que apareceu, e porque foi tão oportuno.

Para apreciar totalmente a significância do ODF é necessário compreender o clima do mercado no qual ele foi criado e, para entender isso, é necessário uma pequena história dos processadores de texto. A seguinte linha do tempo ilustra as datas de lançamento das aplicações de processamento de texto nos últimos 30 anos, aproximadamente. Você vai notar alguns nomes familiares e outros nem tanto:

ODF

Podemos dividir essa linha do tempo em dois períodos, cada uns deles guiado por um desenvolvimento fundamental. O primeiro período foi a “Era Pioneira”, época em que os primeiros passos em direção aos modernos processadores de texto foram dados. Era uma época liderada, principalmente pela Xerox PARC, que desenvolveu o primeiro processador de texto WYSIWYG, o Bravo, e também desenvolveu a primeira IGU (Interface Gráfica de Usuário), a Gypsy. Exceto pelo editor de linhas vi, que ainda tem alguns fãs entre os anões trogloditas das cavernas, nenhuma dessas aplicações da primeira geração sobreviveu, mas sua influência sim. Por exemplo, Charles Simonyi, depois de ter trabalhado no Bravo, pela Xerox, foi para a Microsoft desenvolver o Word. (Ah, aqueles dias antes das patentes de software…)

As próximas aplicações processadoras de texto, na “Era do Computador Pessoal” chegaram nos anos 1980 com as novas plataformas IBM PC (1981) e com o Apple Macintosh (1984). Novas plataformas exigem aplicativos, tanto novos como portados das plataformas antigas, e você verá vários nomes conhecidos introduzidos nesse período tão frutífero.

Então, temos um buraco. De, mais ou menos, 1990 até 1999, não vemos muitos novos processadores de texto sendo lançados. Essa foi a “Década Perdida”. Os novos processadores de textos morreram. Sem o desafio da competição, mesmo o Microsoft Word avançou relativamente pouco nessa década, comparado às inovações de antes e depois.

Umas poucas forças estavam no jogo aqui. Primeiro, houve uma melhoria da plataforma, do MS-DOS para o MS-Windows 3.1 (1991), e deste para o Windows 95 (1995). Poucas empresas estavam aptas para portar suas aplicações para o Windows. Da mesma forma, o mercado mudou significativamente com a introdução do Microsoft Office como suite de aplicações. De repente, não era mais suficiente ter um bom processador de textos como, digamos, o Wordperfect, ou uma boa planilha de cálculo, como o Lotus 1-2-3, ou um bom pacote de apresentações, como o Harvard Graphics. Para ser competitivo, era necessário ter os três componentes num único produto. E poucas empresas conseguiram. Finalmente, havia o acesso preferencial às informações técnicas do sistema operacional, que a Microsoft deu às suas próprias equipes de desenvolvimento de aplicações, permitindo que os aplicativos da Microsoft rodassem melhor no sistema operacional da empresa do que os aplicativos dos concorrentes. A década terminou com a concorrência entre os processadores de texto aniquilada. Os analistas pararam de monitorar e relatar os dados da participação do mercado quando a participação do MS Office passou dos 95%. E os formatos de arquivo? Haviam os binários DOC, XLS e PPT. E a documentação dos formatos de arquivo estava disponível somente sob a licença da Microsoft, e somente se você aceitasse não desenvolver aplicativos concorrentes.

Esse era o formato do mercado em 2000. Ou, mais apropriadamente, o estado do monopólio da Microsoft.

Então, o que aconteceu que tornou o ODF possível? Em uma palavra, a Internet. Bem, não propriamente a tecnologia da Internet em si, mas o acesso massificado à internet pela web. Isso possibilitou que o movimento do código aberto, como o conhecemos hoje, crescesse. Embora o movimento pelo código aberto existisse antes da web, a menos que você estivesse numa grande universidade ou centro de pesquisa, compartilhar código e trabalhar de forma colaborativa em software era muito difícil. Mas, com o amplo acesso ao e-mail, ftp, web e, eventualmente, o controle de versões, tínhamos as ferramentas necessárias para fazer o código aberto crescer entre pequenas e grandes equipes de desenvolvimento. E escrever um concorrente do Microsoft Word demandava uma equipe substancial.

Por que o código aberto é tão importante? Porque nenhuma entidade racional em busca de lucros competiria contra um monopólio, especialmente um mantido pela restrição de acesso às informações técnicas necessárias para a interoperabilidade. Na falta de uma regulamentação governamental, o mercado foi reavivado pelo código aberto. É possível verificar o mesmo com o Linux e com os navegadores web.

Outra coisa que a Internet e a web trouxeram foi uma nova plataforma baseada em padrões abertos, HTML, CSS, XML, Javascript, permitindo um tipo interativo de aplicações web chamado “AJAX”. E, uma vez que essa plataforma tenha sido baseada em padrões abertos, a Microsoft foi menos eficaz em evitar a competição nessa área. Com certeza, eles tentaram. Do ActiveX ao Silverlight, de um suporte a padrões pobre no Internet Explorer, ao infame memorando de Bill Gates em 1998: “Uma coisa temos de mudar em nossa estratégia – permitir que documentos do Office sejam rederizados pelos navegadores de outras empresas é uma das coisas mais destrutivas que poderíamos fazer para a empresa. Temos de parar de colocar esforços nisso e garantir que os documentos do Office dependam muito das CARACTERÍSTICAS PROPRIETÁRIAS DO IE”, eles tentaram, mas falharam totalmente em “tomar a web de volta” e transformá-la numa plataforma proprietária da Microsoft.

Com a nova plataforma de aplicações na web, apareceram novos processadores de texto baseados na web, algumas das quais colocadas no gráfico acima.

O efeito da rede foi que, desde aproximadamente 2000, temos uma nova diversidade de processadores de texto, em código aberto, baseados em web, e até volta da competição comercial. É nesse pano de fundo que a história da competição e da diversidade foi aniquilada, e depois restaurada no novo milênio, que o ODF nasceu. Hoje, todo processador de texto digno de nota suporta o ODF, incluindo o Microsoft Word. Como Diretor de Tecnologia Nacional da Microsoft e atual CIO do Stado de Washington, Stuart McKee disse, “o ODF claramente venceu”. Nós escalamos a parede de degraus do monopólio e plantamos uma nova bandeira. Nossos inimigos agora são nossos colegas, trabalhando conosco no ODF 1.2. Mostramos que podemos vencer. Mas agora precisamos mostrar que podemos governar. Esse é o desafio. Precisamos continuar a desenvolver o ODF de forma a ir de encontro às necessidades dos usuários – e há necessidades diversas – bem como acomodar uma grande quantidade de modelos de aplicações, desde aplicações de desktop tradicionais pesadas, até aplicações móveis, aplicações baseadas na web, ao mesmo tempo em que essas mesmas plataformas estão evoluindo e convergindo. Os padrões avançam em velocidades glaciais, enquanto que as forças tecnológicas e competitivas se movem em várias velocidades. Permitir a flexibilidade e a extensabilidade e, ao mesmo tempo, preservar a interoperabilidade entre implementações ODF – isso é uma tarefa difícil, e que não é totalmente tecnológica. O valor principal do ODF é suportar a interoperabilidade num mercado com uma diversidade de aplicações.

Mas chega de reflexões. É hora de voltar ao trabalho no ODF 1.2. Preciso descobrir a depreciação linear de acordo com o sistema de contabilidade francês, dessa forma poderemos especificar a função AMORDEGRC da planilha de cálculos adequadamente.

O artigo ODF 5 anos de Rob Weir, a menos que seja expressamente declarado, é licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-Noncommercial-No Derivative Works 3.0 United States License.

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